A voz do miado
bastidores da escrita de um romance
Meu gato sobe à mesa e aperta as teclas do teclado quando não o olho. Ele mia, me lembrando de que gatos não miam uns para os outros. Esse miado que conhecemos não é parte da comunicação da espécie, é parte da comunicação deles com a nossa espécie humana. Quando há dois ou mais gatos, eles raramente miam entre si. Suas interações são silenciosas, passam por movimentos do corpo, pelo cheiro um do outro, por eriçares de pelos em circunstâncias de ameaça ou brincadeira. As patas elevadas no ar e a língua no banho compartilhado dizem mais que seus miados. Conosco miam. Isso é uma imitação que eles desenvolveram porque nós falamos com eles. A gente fala, emite sons, se comunica por outra linguagem. Nos imitam para que seus desejos sejam notados. Um carinho, comida, companhia, brincar de pique esconde.
O Tôle mia, chamando minha atenção, querendo interagir depois deu estar há duas horas encarando a tela do computador. Estou finalizando a reescrita do meu romance novo, finalmente vejo uma luz no fim do túnel dessa tarefa longa e feita de forma tão interrompida nos últimos meses. Em mais algumas semanas ele terá sua versão final ––> inicial. Essa versão final ainda está feita só pelas minhas mãos. Depois haverá um editor, e sei que novas alterações serão solicitadas. Mas essa, após receber algumas leituras críticas, tem me habitado no pouco tempo que sobra, gerando emoções múltiplas sobre o bom e o ruim, o pronto e o inacabado.
O primeiro livro que li sobre o ato de escrever, em meados de 2014, foi de Stephen King. No livro Sobre a escrita, o autor narra, entremeado às suas memórias pessoais, como se construiu sua carreira de escritor, e como ele acredita ser essa arte da escrita literária. Em certa altura da vida, conta de quando trabalhava batendo ponto enquanto professor e lavando lençóis dos outros em uma lavanderia durante as férias de verão. Nas horas vagas, ele escrevia seu romance. Um dia, compreendendo que a história era desconexa ao que ele desejava e sem ver futuro de vendas para ela, jogou as quarenta páginas no lixo em um rompante, e foi trabalhar. Ao retornar para casa, sua esposa, Tabitha, resgatara as páginas do lixo, “espanara as cinzas de cigarro das bolas de papel amassado, alisara as páginas e começara a ler”.
Tabitha aconselhou o marido a continuar escrevendo a história, havia algo de especial ali. Graças à ela, Stephen King terminou de escrever o livro Carrie, a estranha, que vendeu 4 milhões de cópias no mundo e foi o trampolim para sua carreira de sucesso.
A voz do meu gato me chama de novo. Ergo a cabeça, acaricio atrás de sua orelha, meu foco ainda em uma encruzilhada. Tenho duas sugestões opostas sobre meu texto. Vieram de autoras que conheço, com carreiras bem sucedidas, muito sérias no seu fazer literário. Mulheres admiráveis que eu já tive a chance de “conviver” momentaneamente através de encontros online, cursos, etc. Uma sugere que eu mantenha uma parte, a outra que corte. Isso acontece em diferentes trechos do texto; elas não sabem, mas discordam até mesmo do título. Uma ama, a outra me pede para alterar.


Submeter-se a uma leitura crítica, percebo, é justamente um exercício de aprender a ouvir a si mesma pelo olhar do outro. É ter uma Tabitha dizendo X de um lado, um gato miando de outro e uma tela brilhante secando as vistas, pedindo que se escolha um caminho ou feche o arquivo por ora.
Analiso as possibilidades. É ótimo ter essas opiniões profissionais de mulheres que eu confio na habilidade literária, mas no fundo importa mais o que eu quero dizer com o meu texto. O que eu quero manter ou cortar? E também a maneira pela qual eu quero e consigo contar essa história. Acho que esse consigo é importante. Uma publicação com meu nome dirá do meu momento também, das minhas habilidades. Releio, gosto do que criei. Não gosto de tudo no modo que criei, porém. Agora que o texto descansou por meses enquanto eu foquei em escrever para os outros e me readaptei ao mestrado, consigo enxergar com clareza o quanto o livro está prolixo. Corto, capino o texto sem dó. Isso também é um problema, perder o apego demais traz o risco de cortar a franja muito rente à testa e restar com algo arrepiado, sem o caimento no rosto de nascença.
Volto ao trecho das opiniões contrárias. Esse pedaço, por algum motivo, me deixa em cima do muro. Justo onde as opiniões também não combinam. Mas o que me inquieta não é necessariamente sobre essas sugestões, ou sobre que caminho seguir. Apesar da reescrita, sinto que já fiz meu percurso de migalhas de pão; se vai me levar à casa da bruxa ou de volta ao vilarejo para celebrar, isso só saberei após a publicação. Meu gato mia. Aproveito para esticar as pernas enquanto brinco um pouco com ele. Ele corre. Estaciona no primeiro degrau das escadas, as pupilas negras dilatadas ao máximo avisam de que está pronto. Me preparo também, acho graça, assim como achei graça em todas as outras milhares de vezes que já fizemos isso. No primeiro indício de que vou, ele dispara escada abaixo e corre pelo apartamento.
Em idade humana, está quase na casa dos 70 anos, mesmo assim estaciona de tempos em tempos e me espera, para que eu consiga alcançá-lo. Se me aproximo demais, ele dispara de novo, se esconde atrás da cortina, seu rabo preto para fora, sua inocência de filhote aflorada. Fico estática controlando a respiração. Quem vai assustar quem primeiro? Sempre ele. Pula para fora da cortina, as quatro patas no ar, impulsionado por alguma mola invisível que os gatos possuem em seu corpo. Eu pulo junto com o susto, corremos mais um pouco. Me canso antes dele, dou um chamego, o pego no colo com a barriga para cima, seus olhos voltaram ao risco de pupila no mar de verde oliva. Piscamos lentamente, agora sou eu quem troca a voz e as palavras pela linguagem de amor dos gatos.
De volta ao escritório, resgato da estante o livro Zen na arte de escrever, de Ray Bradbury. O que a escrita nos ensina?
... nos lembra de que estamos vivos e que isso é um presente e um privilégio, não um direito. Precisamos nos apropriar da vida, já que ela nos foi dada. A vida pede recompensas, pois nos concedeu o ânimo.
Então, embora nossa arte, ainda que assim desejemos, não possa nos salvar de guerras, privação, inveja, cobiça, velhice ou morte, ela pode nos revitalizar no meio de tudo isso.
Em segundo lugar, escrever é sobreviver. Qualquer arte, qualquer bom trabalho, claro, significa isso mesmo.
Em outra página, ele continua:
O atleta deve ignorar a multidão e deixar seu corpo correr a corrida por ele.
O escritor deve deixar os dedos esgotarem a história de suas personagens, que, sendo apenas humanas e cheias de sonhos e obsessões estranhas, ficam felizes em poder correr.
Ao lado, ouço o sopro leve, quase inaudível, do Tôle se aninhando na poltrona. Sem mais um pio, ele adormece, a respiração tão tranquila que mal se nota o movimento do diafragma. Ele não se importa com o barulho do teclado, está satisfeito com nossos minutos de interação. Enquanto dorme, eu retorno à escrita, em busca do encontro de sobrevivência na brecha do dia. Em busca de esgotá-la para depois deixar correr.
Obrigada por chegar até aqui!
Se você gostou desse ou de outros textos dessa newsletter, compartilhe com alguém que também possa se interessar pela leitura.
Até a próxima! Com carinho,
Cleu
Ps: também estou no Instagram falando de literatura, escrita e mostrando os bastidores dessa vida de aprendiz.

