Como um acontecimento excessivo
o escapamento da fala em diálogo imaginado
Tudo isto deve ser considerado como dito por uma personagem de romance (RB)
CL — Estou escrevendo pra você, mas também não tenho nada o que dizer. Acho que é assim que pouco a pouco os velhos honestos terminam por não dizer nada.
VW — Eu não consigo escrever uma palavra. Mesmo assim sou capaz de ver que existe algo ali; então vou esperar um dia ou dois e deixar o poço encher.
RB — Ajo sempre – teimo em agir, não importa o que me digam nem quais sejam meus próprios desencorajamentos... Procuro, começo, tento, vou mais longe, corro, mas nunca sei que acabo...
WS — Mas a verdadeira literatura só começa quando as personagens vivas intrigam mais que o cadáver misterioso.
AL — É necessário esmiuçar não apenas a verdade do que dizemos, mas a verdade da própria linguagem que usamos.
SS — É isso. É só isso. Não tem mais nada além disso.
AA — Meu pensamento foge-me de todas as maneiras possíveis, do simples fato do pensamento em si mesmo ao fato externo de sua materialização em palavras. As palavras, a conformação das frases, o fio interior dos pensamentos, as simples reações da mente – estou sempre em busca de meu ser intelectual. Quando, por isso, ocorre apoderar-me de uma forma, embora imperfeita, anoto-a, receoso de vir a perder toda a ideia.
CL — Passo o tempo todo pensando — não raciocinando, não meditando, mas pensando, pensando sem parar... Sempre quis ‘jogar alto’, mas parece que estou aprendendo que o jogo alto está numa vida diária pequena, em que uma pessoa se arrisca muito mais profundamente, com ameaças maiores.
HH — Se eu quisesse, enlouquecia. Sei uma quantidade de histórias terríveis. Vi muita coisa, contaram-me casos extraordinários, eu próprio... Enfim, às vezes já não consigo arrumar tudo isso. Porque, sabe?, acorda-se às quatro da manhã num quarto vazio, acende-se um cigarro... Está a ver? A pequena luz do fósforo levanta de repente a massa das sombras, a camisa caída sobre a cadeira ganha um volume impossível, a nossa vida... compreende?... a nossa vida, a vida inteira, está ali como... como um acontecimento excessivo.
WS — A idade explica muito. Quando temos dezessete anos, fingimos ser tudo, menos nós mesmos. Conhecemos esse horror de nossas próprias recordações
RB — Somos e não somos sós. E depois ser só não é ser só. Não estamos sós.
SS — Será que sou eu mesma quando estou sozinha?
AL — Meus silêncios não me protegeram. Seu silêncio não vai proteger você.
CL — Tenho a impressão de que falo muito e que digo sempre as mesmas coisas.
VW — A vida de uma pessoa não está limitada a seu corpo nem ao que ela diz ou faz. Psicologicamente, esta é a mais estranha das minhas aventuras, acho.
SS — O escapamento da fala. Minha mente está escorrendo através da minha boca.
RB — Transportado para fora da linguagem.
AL — Não há, de onde vejo, nenhuma diferença entre escrever um poema maravilhoso e me mexer na luz do sol junto ao corpo de uma mulher que amo.
RB — De amor não falemos. De que serviria dar nome ao que encerra somente o equívoco?
VW — Mas o que é o amor? O que é esse amor?
AA — Eu sei que eu não devia ter a necessidade, que eu não tenho a necessidade de lhe dizer mais alguma coisa sobre isso: a água é forte perto do fogo. Com os detalhes que a palavra escrita não suporta, quero dizer que ela é incapaz de fazer compreender, de precisar, de elucidar, de dar relevo.
CL — Farei o possível para não amar demais as pessoas, sobretudo por causa das pessoas. Às vezes o amor que se dá pesa, quase como responsabilidade na pessoa que o recebe.
AA — Eu levei muita gente, homens e mulheres, diante da maravilhosa tela, mas é a primeira vez que eu vejo uma emoção artística tocar um ser e o fazer palpitar como o amor. Seus sentidos tremeram, e eu me dei conta de que em você o corpo e o espírito estavam formidavelmente ligados, uma vez que uma pura impressão espiritual podia desencadear em seu organismo uma tempestade tão potente. Mas nesse casamento insólito é o espírito que avança sobre o corpo e o domina, e acabará terminando por dominá-lo em tudo. Eu sinto em você um mundo de coisas que pedirão somente para existir caso encontrem seu exorcista. Você mesma não tem inteiramente consciência, mas você as convoca com todo seu espírito e, sobretudo, com todos os seus sentidos, seus sentidos de mulher, que, em você, são também espírito.
AL — O erótico é um recurso que mora no interior de nós mesmas, assentado em um plano profundamente feminino e espiritual, e firmemente enraizado no poder de nossos sentimentos não pronunciados e ainda por reconhecer.
SS — Mas o verdadeiro resultado é uma mudança de sentimento. Mais exatamente, uma nova relação entre sentimentos e a mente.
CL — Querida, quem faz arte sofre como os outros, só que tem um meio de expressão.
HH — É ficar muito atento – atento e receptivo como um espelho onde a figura mostrava que não tinha nada na manga (onde tinha tudo).
RB — Assim é a ferida de amor: uma abertura radical (nas ‘raízes do ser’), que não chega a se fechar, e de onde o sujeito escorre.
HH — O fim e o recomeço do mundo entre copos de cerveja, num lugar sem nome afundado. Não há cerveja que nos chegue. Nem discurso satisfeito de si em intenção ao mundo, nem louvor bastante da desordem e renascimento da vida. Por isso não paramos de beber e de falar. Mas não é nem nunca foi essencial. A comoção e a esperança, sim, essas existem, e são o tema dos nossos dons, a nossa tarefa. E é nelas próprias que o milagre do mundo pode ser concebido.
Tem dias que só dá vontade de deixá-los conversarem, e ouvir sentada na plateia, absorver o possível, se encher ao máximo e seguir.
Trechos recortados dos seguintes autores:
AA = Antonin Artaud, A perda de si
AL = Audre Lorde, Irmã Outsider
CL = Clarice Lispector, Todas as cartas
HH = Herberto Helder, Os passos em volta
RB = Roland Barthes, Fragmentos de um discurso amoroso
SS = Susan Sontag, Diários de Susan Sontag
VW = Virgina Woolf, Os diários de Virginia Woolf
WS = Wyslawa Symborska, Correio Literário
O diálogo acima foi criado pelo acaso, lendo trechos, recortando, reconfigurando. Nada ali aconteceu no real, a não ser as palavras ditas, escritas, porém em outros contextos, textos, com outras pessoas, por eles e elas. Mas as palavras, sendo reais o suficiente, me bastaram como abertura para entrar.
Entrei no palco e os sentei comigo em conversa.
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Com carinho,
Cleu Nacif
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Ainda não me acostumei com essa nomenclatura hahahah mas é verdade esse bilhete! Sou a apresentadora do podcast Oceano Específico, um espaço de encontro com convidados atuantes no meio acadêmico. Lá, partilhamos experiências e referências sobre o percurso na pós-graduação, desafios e alegrias desse campo abrangente. Se quiser conhecer e se inteirar dos primeiros episódios, é aqui:
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