Decifra-me ou te devoro!
O mundo digital, os infoexcluídos e o enigma da atualidade
Infoexclusão. Me deparei com essa nova palavra recentemente, lendo um livro chamado E se eu morrer amanhã (da Filipa Fonseca Silva, comentei desse livro aqui). Não é uma palavra nova, mas com a velocidade tecnológica, até mesmo adquirir novos vocabulários tem sido uma aventura.
Vou voltar um capítulo nessa história. Foi na trave, eu quase consegui lançar minha aulona (ou masterclass) em janeiro, mas ficou apertado. Na primeira segunda-feira de fevereiro ela entrou no ar. Não se preocupe, essa news não é mais uma publicidade passando na sua timeline (a não ser que você se interesse, aí é só clicar nesse link).
Essa edição é para falar como fiquei impactada com a parte de logística tecnológica de se hospedar um curso online. Quem tem suas facilidades com essa coisa toda da tecnologia, de fato, sempre vai viver na frente nesse momento da nossa civilização. Além dessa realização óbvia, foi um processo de vivenciar na prática como é inquestionável o quanto usar a inteligência artificial como um assistente foi o fator que me possibilitou conseguir ter esse curso no ar. O que me leva ao terceiro ponto: existir e ter presença no mundo digital hoje é ser hipócrita em alguma medida. No meu caso, saber de todas as garrafas de água potável desperdiçadas e o quanto não concordo com tantas coisas dessas empresas, enquanto, mesmo tendo essa consciência, lá fui eu passar duas semanas buscando o auxílio do chat GPT.
Eu tenho muitas amigas mais velhas do que eu. Convivo bem e gosto muito de conversar com gente mais velha, com seus 70, 80, 90 anos. Sempre fui mais chegada dos idosos do que das crianças. Tem quem tenha mais histórias para contar do que aqueles que já viveram um pouquinho a mais? Essa experiência do curso online me deixou pensando muito neles durante o processo de aprendizagem (ou de apenas seguir o mestre e fazer o que o GPT orientava).
Em geral, não me considero incapaz com o uso da tecnologia, mas me estresso facilmente com os percalços. Quando trabalhava mais como fotógrafa, me forçava a aprender o uso de softwares de edição de fotos, ler manuais ou assistir no youtube sobre o funcionamento de câmeras, as atualizações. Nunca gostei dessa parte, só fazia o mínimo para não ficar perdida, mas nunca fiz o suficiente para ser extraordinária no uso dos aparatos. Se eu puder delegar alguma coisa na vida, geralmente escolho essas funções ligadas ao que é mais tecnológico. Por sorte, me casei com meu oposto nesse aspecto, então tenho sempre onde pedir socorro. Foi o Luis quem fez a gravação e edição toda da masterclass, e isso tornou possível o curso de existir. Depois, com os vídeos em mãos, veio a hora de hospedá-los em alguma plataforma. Pesquisei um pouco as opções, mas decidi renunciar aos meus percentuais a mais de pagamento para colocá-lo onde parecia ser mais intuitivo.
Mesmo a plataforma da Hotmart para o produtor sendo organizada, a grande realidade dessa experiência toda foi: não fosse pelo chat GPT respondendo toda e qualquer dúvida básica minha sobre o que é isso ou aquilo que a Hotmart estava pedindo, eu não teria conseguido colocar o curso no ar. Fato.
Por que minha resposta não está sendo aceita? Por que o botão de salvar não atualizou? O que eu cliquei errado agora? Foram muitas dúvidas diárias, e lá estava a inteligência artificial resolvendo os percalços para mim, até chegar ao ponto de poder dizer: está lá, rolou, ufa! Foram duas semanas só para conseguir cumprir todas as etapas de subir os vídeos e deixar tudo pronto para as inscrições. No mesmo período, me deparei com essa palavrinha no texto da Filipa: infoexcluídos.
À medida que a tecnologia se integra mais profundamente nas nossas vidas, aqueles que carecem de habilidades no meio ou no acesso às ferramentas necessárias são mais facilmente marginalizados, acentuando desigualdades sociais e econômicas (…)A infoexclusão reflete mais além do que a capacidade de acesso à Internet, mas também às consequências que esse acesso engloba e a forma como o acesso é feito.
No artigo Literacia da informação: Luta contra a Infoexclusão, Maioto, Marques e Pires discorrem justamente sobre esse tema. Eu não me enquadro nessa palavra, mas conheço algumas pessoas próximas que sim. Fiquei pensando muito nessas amigas, conhecidas e clientes, me lembrando de suas dificuldades em fazer coisas na internet que, para mim, são básicas. Realizar tarefas como enviar um arquivo, abrir uma live no Instagram, usar o chat GPT como auxiliar, conseguir emitir um documento digital ou até mesmo pagar uma conta. Eu sei que num país como o nosso, com a taxa de analfabetismo funcional se mantendo nos quase 30% da população, falar de analfabetismo ou exclusão digital pode parecer tolo para alguém. Pois não é.
Apenas cerca de 24% da população brasileira possui habilidades digitais básicas, como conseguir anexar uma imagem ou copiar e colar uma mensagem. As mulheres têm ainda menos habilidade do que os homens com as questões digitais.
Esses dias mesmo estive ajudando minha mãe a aprender a mexer no aplicativo do air b&b para uma possível viagem. Conheço diversas pessoas, em sua maioria mulheres, que não sabem o mínimo do digital, tendo dificuldades de pagar uma conta ou navegar por sites importantes como o gov.br, onde estão nossos documentos digitais salvaguardados hoje em dia, assim como outros dados de vacinação, etc.
O meu trabalho principal é escrever. Depois, é pesquisar e ensinar escrita. Num mundo digital, é preciso veicular esses trabalhos todos ao espaço da internet também. E dá vontade de desistir a cada tarefa/habilidade/função nova que preciso aprender nessa área, porque para mim é difícil compreender e chato. Tudo é muito rápido, muito avançado e muito eletrônico. Eu ainda uso calendário de papel e agenda de papel, escrevo coisas à mão. É louco, pois, apesar de ser nocivo em alguns aspectos, hoje parte do que eu faço em relação às burocracias de cursos, pagamentos, etc, só consigo fazer porque tenho uma assistente de IA para me ensinar.
No livro Surgimentos do novo cidadão e os infoexcluídos na sociedade algorítmica, os autores apontam como a exclusão digital está em diversas camadas como material, técnica, simbólica, cultural e política, além da geracional.
A população sénior representa um grupo heterogêneo com forte taxa de exclusão
digital e dificuldade de adaptação às tecnologias.
Mesmo com iniciativas privadas e públicas (que ainda são poucas), essas limitações persistem. É interessante pensar o quão emancipador o mundo digital pode ser, tanto quanto excludente. Dentro da pequena pesquisa que eu fiz refletindo sobre esse assunto, achei que chegaria a algum ponto de desfecho, ou de respostas para tantas perguntas. Mas a complexidade é tão profunda que, ainda que sem resposta, quis seguir com essa edição. Porque eu sei que todo mundo deve conhecer no mínimo algumas pessoas que entrariam no grupo de infloexcluídos.
A gente não pode fazer muito, mas às vezes explicar com um pouco mais de paciência algo desse mundo digital – que é óbvio para um e parece um enigma da esfinge para outro – pode ser um passo. Afinal, poderíamos ser Édipo fazendo a passagem para Tebas, se deparando com a grande esfinge monstruosa, que o avisa:
Decifra-me ou te devoro! – disse o mundo digital.
E a resposta para o enigma, mais uma vez, continua sendo a própria criatura e criador: - Nós, humanos.



