O gramado como obra
dentro e fora do futebol
Eu não sou do futebol. Sou de pessoas, e, em Copa do Mundo, a história das pessoas que jogam e fazem parte direta vem à tona. Para o bem e para o mal. Quero falar do bem, porque hoje me emocionei demais lendo a carta do jogador da Costa do Marfim, Yan Diomandé.
Yan Diomandé chegou para a copa depois de uma temporada impecável de gols e partidas com seu time RB Leipzig, da Alemanha. Quem contou isso foram os principais canais de esporte, é claro, já que eu não sei muito de futebol para poder confirmar ou questionar essa informação. Escolho ficar no espaço onde Diomandé conta ter mergulhado: no trabalho como jogador para conversar com sua irmã.
Em uma carta publicada, ele nos apresenta momentos de sua história enquanto conversa com sua irmã, trazendo memórias dos dois, relembrando momentos da trajetória do jogador até conseguir ser contratado por um time europeu, tendo ela como sua maior torcedora. E aí a carta dá na gente o soco da notícia, do jeito que ele também recebeu, sem aviso.
Querida Roxane,
Lembra quando alguém comprou para mim uma camisa falsificada do United e eu escrevi Ronaldo 7 na parte de trás com caneta preta?
A gente não sabia o que era ser rico ou pobre. Só sabíamos o que era felicidade.
Lembra das 25 pessoas dormindo numa casa em Abidjan? Minha mãe queria assistir novelas. Todo mundo queria assistir filmes. Lembra de como eu sempre fingia estar dormindo para ir à sala de TV depois da meia-noite? Eu botava a TV no volume bem baixo. Tipo, só duas barrinhas de volume, e assistia futebol no escuro e sonhava.
Lembra de quando os adultos me viram jogando futebol no campo de terra e me apelidaram de “Roberto Carlos” por causa da força dos meus chutes? E lembra como eu ficava secretamente bravo com isso, porque o CR7 era meu ídolo?
[...]
Lembra quando fiz um teste no Bournemouth? No Chelsea, no Rangers, no Olympiacos, no Crystal Palace? Eze e Olise até vieram falar comigo depois de um treino e disseram: “Ei, garoto, você é muito bom.”
Mesmo assim não me contrataram.
Meu visto expirou . Meu sonho acabou. Me mandaram de volta para a África, e nós choramos juntos. Você nunca parou de acreditar. Algumas semanas depois, assinei com o Leganés e choramos lágrimas diferentes.
Isso foi na época em que eu ainda tinha emoções. Agora, não sinto nada. É como se eu nem fosse humano. Desde que você morreu, estou vazio.
Acho que não derramei uma lágrima no dia em que me disseram que você tinha partido. Eu estava em choque. Foi algumas semanas depois da minha estreia pelo Leganés. Quem estreia com 18 anos contra o Real Madrid? Foi uma loucura. Foi um sonho.
E então virou um pesadelo. Alguém da nossa cidade não parava de me ligar. Aquilo estava me irritando. Eu não entendia por que continuavam me ligando. Atendi, e eles sequer suavizaram a notícia. Você sabe como é lá em casa. Sem emoção. Só...
“Sua irmã se foi.”
“O quê?”
“Ela morreu.”
“Do que você está falando?”
“Alguém colocou alguma coisa na bebida dela em uma festa, e ela nunca mais acordou. Ela se foi.”
Você tinha 15 anos.
15.
Nunca obtive nenhuma resposta. Não sei se quero saber. Talvez tenha sido ciúme. Talvez seja apenas algo que acontece no nosso país. Talvez eu pudesse ter te protegido. Não sei.
Tento confiar no plano de Deus. É tudo o que posso fazer. Não tento esquecer, porque sei que não vou esquecer. Tudo o que posso fazer é usar a dor para trabalhar mais e realizar tudo o que sonhamos.
Escrevi isto porque não consigo falar sobre isso. Escrevi isto porque quero que você saiba que vou garantir que você continue vivendo. Vou garantir que todos saibam o seu nome. O mundo inteiro.
Tudo o que faço no campo de futebol é para você.
[...]
O campo é o único lugar onde me sinto em casa hoje em dia. É o lugar onde me sinto tranquilo e posso conversar com você. Eu só queria que você ainda estivesse aqui para eu poder te dizer: Nós conseguimos!
Tudo o que você disse se tornou realidade.
Estamos indo para a Copa do Mundo amanhã. De verdade. Seu irmão vai jogar pela Costa do Marfim, como o Drogba, como o Yaya, como o Gervinho.
Eu nem encaro isso como um jogo. Eu encaro como um palco. Esta é a minha chance de mostrar ao mundo inteiro o que você via em mim. Cada vez que eu marcar um gol, vou garantir que todos saibam o seu nome. Vou garantir que ninguém se esqueça de você.
Esses são apenas trechos da carta que foi publicada integralmente no site The Players Tribune. Eu fiz uma tradução livre e quis compartilhar, não para aproveitar o timing, ou o hype da Copa. Estava com outra newsletter encaminhada, mas essa carta me atravessou. Porque ela é tão bonita, e porque eu disse outro dia algo parecido para uma amiga: escreva, já que você não ainda consegue falar sobre isso. Yan Diomandé escreve por não conseguir falar. Ele joga para ficar mais perto da irmã. Ele publica e, ao fazer isso, nos inclui, para manter o nome dela vivo. Tem um mundo inteiro atrás desses jogadores. Tem um mundo inteiro acontecendo atrás e do lado da gente o tempo todo.
Outra história que surgiu nessa primeira semana de Copa foi a de Vozinha, goleiro do Cabo Verde. Seu nome repercutiu a ponto de ficar famoso depois de uma ótima performance em campo contra o time da Espanha. Josimar José Évora Dias tem 40 anos, e tem o apelido de Vozinha desde menino. O apelido vem da sua relação com a avó, Dona Maria Senhorinha. A mãe trabalhava fora e o pai servia no exército. A avó foi sua referência na criação, e para quem ele corria quando ficava chateado após levar umas pancadas dos meninos da rua.
Depois do empate de 0x0 com a Espanha, tendo defendido muito bem o gol, superando qualquer expectativa, Vozinha cedeu à emoção. Seus avós, Dona Maria e o avô Manuel, morreram há cerca de dois anos e não puderam ver o neto realizar o sonho de disputar uma Copa.
“Chorei porque fui criado pelos meus avós. Infelizmente eles não estavam aqui. Eles eram tudo para mim.
Hoje, se estivessem vivos, estariam muito orgulhosos do neto. A minha emoção foi por causa disso. É algo com que Cabo Verde sonhou a vida toda”.
A mãe de Vozinha tentou estar na Copa, mas não conseguiu tirar o visto porque Cabo Verde é um dos cinco países participantes do mundial que o governo norte-americano exige um pagamento caução de até 15 mil dólares (cerca de R$78 mil reais) para se obter o visto de entrada.
Depois do primeiro jogo, sem ter nenhum familiar presente, a repercussão foi tamanha que gerou uma mobilização pelas mídias, chegando até autoridades americanas e a mãe de Vozinha, dona Ana Candida, conseguiu liberação para estar no segundo jogo de Cabo Verde.
Como não se emocionar com isso tudo?! Eu poderia elencar mais várias histórias dessa copa e ainda estamos só na primeira fase de eliminatórias. São histórias que existem e trazem a força da superação na raiz. A oportunidade de tê-las por perto vem também da expansão da Copa do Mundo em se abrir para outros países estreantes participarem, trazendo mais representatividade e cultura através do esporte.
O poeta português Herberto Helder escreve que “Deve-se velar por aquilo que conseguiu ascender, entre riscos e ameaças, às condições da realidade”. Ele fala isso se referindo ao cuidado com a própria obra poética, aquilo que conseguiu existir mesmo com todo o risco. Por isso mesmo precisa ser velada, ser cuidada por ser frágil em sua natureza, porque a linguagem é instável. É fazer o gesto de preservar o que quase não foi. Mas foi.
Fiquei pensando em Yan e Vozinha ao ler Herberto. O campo gramado, a eles, parece ser onde a obra continua a ser feita e ser velada; onde seus ausentes podem continuar existindo, motivando, fazendo-os sentir e derramar, fazendo-os seguir adiante. Esse poder compartilhado entre esporte e arte é uma grande dádiva, mesmo que fora de campo a crueza da vida siga existindo.
Como eu disse, eu não sou de futebol. Sou de gente. Talvez, justamente por isso, nesse momento eu também seja do futebol.
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Até a próxima e bons jogos!
Cleu Nacif






Parabéns e obrigada por trazer emoção através do texto.
Que lindo. Obrigado por esse texto!