Oceano Específico
e o dizer sim sentada na insegurança
Estavam se completando dois anos do meu retorno da Irlanda ao Brasil. Trabalhando, dando cursos, escrevendo para mim, escrevendo para os outros, pulando de galho em galho em busca de refazer o próprio caminho na minha cidade natal. Certos meses enchiam a alma de esperança no fazer literário, fazer criativo; outros, de vacas magras, balançavam a confiança. A inteligência artificial firmava seu terreno diariamente, com notícias cada vez mais concretas da extensão de seu alcance por todas as áreas criativas e, através da escrita do meu romance, fui elaborando pensamentos sobre um assunto que me interessa há muitos anos: esses papéis da arte, o que é, para que serve, o que me desperta, o que desperta no outro, por que com I.A?, por que sem I.A.?, etc. etc.
Respostas poucas, perguntas infindas.
Arte faz isso, né, levanta, questiona, confunde, nunca entrega de bandeja. Por isso dessa prancha de navio pendurada sobre o mar vasto embaixo: achar que se sabe, que se entende por completo de Arte é dar um passo em falso na prancha direto para a água.
Na época, me inscrevi em uma disciplina isolada no CEFET/MG com o pessoal do mestrado e doutorado de lá. Eu nem sabia que o CEFET tinha área de Linguagens, também não sabia dessa coisa de cursar disciplinas isoladas, eu só sabia da minha saudade de dialogar com quem gosta de literatura e arte de um jeito menos rede social e mais gente conversando com gente. Qual foi minha surpresa ao me encontrar tão nutrida ali, a ponto de não querer sair mais. Mas para não sair, primeiro eu teria que entrar.
Pulemos alguns meses de um processo seletivo longo e um rigor na organização de leituras e estudos que eu já não sabia mais possuir. Até que o processo se completou. Entrei. Tem sido um banho diário de saberes acompanhado de um cansaço imenso, porém agradecido. Meu corpo gosta muito de aprender, a cabeça sofre um pouco para acompanhar, mas segue em frente.
Logo na primeira semana, lá em março, um colega que fiz amizade naquela disciplina isolada, um ano antes, o Gláucio, me avisa: tinha concebido a ideia de um podcast para o CEFET (não somente para lá, esse seria apenas o público alvo inicial), e queria que eu fosse a anfitriã, entrevistadora, pessoa no microfone que sustenta e leva a conversa adiante. A primeira coisa que eu falei foi que eu não ia dar conta, não sei conversar com essa galera intelectual demais, não tenho a bagagem teórica para ficar uma hora falando com professor de doutorado que tem o currículo maior que a bíblia. Eu venho de outra área, não estou diminuindo a minha experiência, sei que meu currículo é grande e bonito, mas sou da escrita criativa. Os embasamentos e as experiências são quase opostas à escrita e ao estudo acadêmico. Um precisa de argumento crítico, rigidez teórica e, aparentemente, uma memória surreal que sabe o nome dos filósofos de Heráclito a Derrida. Eu não sei nem onde fica o banheiro do CEFET direito, ainda me perco naqueles corredores em busca do banheiro feminino porque o arquiteto ali pensou cada corredor de um jeito diferente, e eu realmente não entendo o que ele tinha na cabeça.
Imagina conseguir manter uma temporada conversando até com professor doutor em física, a matéria que eu sempre pegava recuperação no colégio até finalmente tomar uma bela de uma bomba e ter que repetir o primeiro ano do ensino médio! Gente, sem condições.
O Gláucio insistiu, disse que só podia ser comigo, que ele tinha pensado o podcast com a minha voz e o meu jeito.
Cá estamos, na terceira terça-feira do mês de maio, e nosso podcast Oceano Específico acaba de ir ao ar.
Cada conversa tem sido profundamente valiosa, mas tão desafiadora quanto, em especial num aspecto: soltar o controle, vestir a camisa da humildade e aceitar que o que eu desejo ser e o que eu consigo ser às vezes são coisas diferentes. Colocar esse desejo em algo inalcançável parece uma mania de capricorniano nada divertida. Divertido mesmo é ter dado esse sim, embarcado na experiência, estar inteira ali para a fala do outro e, por conta disso, encontrar na vastidão de cada um pedaços de memórias que se complementam com os meus também porque, no final, seja professor, aluno, acadêmico, artista ou caminhante, todo mundo é gente. E a gente, quando se permite sair dos papéis que performamos todos os dias – mãe, esposa, filha, mulher, escritora, poeta, dona de casa, professora..., no frigir dos ovos, o que nos resta é se abrir ao encontro e ceder ao inesperado.
O primeiro episódio me deu um orgulho danado de ouvir. Além da conversa maravilhosa, escutei, somado ali, o meu sim de meses atrás. E o sim de um ano antes, quando resolvi que eu precisava ver gente e ser vista também. Deixar soar minha voz para compartilhar em sala, mesmo com medo e timidez, mesmo insegura de não conhecer todos aqueles nomes difíceis de pensadores seculares que permanecem como referência até os dias de hoje.
Pulei, levando no bolso a probabilidade das gafes e dos atos falhos. Pulamos juntos, de ponta, no nosso Oceano Específico.
Deixo aqui o convite:
Nesse teaser, eu e o Gláucio contamos em 3 minutinhos a proposta do podcast:
E nesse primeiro episódio, a convidada é a professora Bruna Fontes Ferraz. Bruna é de uma generosidade sem tamanho, foi a primeira professora que eu tive no CEFET, virou minha orientadora, e nos ajudou a estrear com o brilhantismo da sua fala, doce de ouvir na mesma medida em que nos oferece histórias que passam pela sua infância até a trajetória que a levou para a sala de aula, para os livros e para os deslocamentos que esse querer literário pode proporcionar:
Espero que gostem, que compartilhem e que o podcast tenha vida longa!
Toda terceira terça-feira do mês estreará episódio novo, numa temporada de 10 episódios com convidados de áreas variadas do mundo acadêmico, todos muito solícitos e abertos ao diálogo. Se inscreva no podcast para acessar os episódios assim que saírem.
Um dos episódios que gravamos foi especialmente desafiador para mim (ele irá ao ar só daqui alguns meses). Saí sentindo que não tinha conseguido dar o meu melhor, aquilo me deu até insônia. Por coincidência, como algo que o universo me enviou, me deparei com os seguintes cortes de vídeos:
Toni Morrison está respondendo a uma pergunta de uma pessoa na plateia sobre outro tema, sobre traumas da vida e como seguir adiante, mas achei a mensagem válida para outros contextos, mais leves como o meu nesse caso, ou mais pesados.
No minuto 09:38 do vídeo acima, o psicanalista Pedro de Santi comenta o quanto sofremos ao tentar corresponder a ideais impostos, muitas vezes, por nós mesmos. Achei bonito como ele pondera o bom e o ruim desse sonhar alto/o peso que gera um ideal inalcançável.
Acessar a singularidade é encontrar e abraçar seu próprio jeito, e isso só acontece ao se quebrar o ideal narcísico. É apropriar-se de si.
Isso é legal demais.
Até a próxima,
Cleu Nacif






A vida tem dessas coisas: às vezes tudo que ela quer da gente é um "sim" a um convite inesperado. Parabéns pelas conquistas!